terça-feira, 20 de setembro de 2011

Transformar o professor,mudar a escola Entrevista com Vaasco Moretto

Professor, pesquisador, autor, assessor pedagógico e consultor,
Vasco Moretto tornou-se uma das vozes mais influentes junto aos
professores da rede pública e particular, em todo o Brasil. Suas conferências
conseguem responder a demandas concretas do educador,
sem perder a perspectiva das transformações mais profundas
da Educação.
Vejam algumas falas da entrevista que Vasco Moretto concedeu à SM, antes
de sua apresentação no Fórum SM da Educação, em maio. Tecnologia,
comportamento, competência, papel da escola e do professor
são alguns dos temas enfocados com sinceridade e, ao mesmo tempo,
esperança por um autodeclarado “otimista inveterado".
-Edições SM : O senhor acredita que o perfil dos jovens do hoje
(que alguns chamam de Geração Y, digital etc.) vai acelerar as respostas
das escolas às demandas do mundo contemporâneo? Em
outras palavras, para educar as novas gerações os professores terão
de rever suas estratégias e suas concepções de educação?
-Vasco Moretto: Neste aspecto há uma aparente incoerência
entre o papel da escola e sua relação. A educação escolar deveria
antever as necessidades da sociedade e preparar os profissionais e
os cidadãos para uma sociedade em transformação. No entanto, o
que se observa é uma educação escolar em que as mudanças vão a
reboque das transformações sociais. No caso específico da geração
nativa no mundo digital há um tremendo conflito com os agentes
da escola que são migrantes para este mesmo mundo. Para gestores
e professores, manter “a tradição”, em termos de conteúdos e de metodologias,parece ser mais seguro e mais eficaz. É para isso que os
professores foram preparados, é nisso que sentem segurança. Para
amenizar o conflito (quase nunca resolvê-lo) mascara-se o problema
colocando salas de informática sem a correspondente cultura digital.
Na verdade, a escola precisa exercer uma dupla função: a conservadora
e a transformadora. Conservadora do contexto histórico-social
de seu grupo e transformadora para uma contextualização para o
novo ambiente que se configura para esta nova geração. Na prática,
parece que a escola está mais empenhada no primeiro papel do que
no segundo. Seu discurso, no entanto, é do papel transformador.

-Edições SM :Sempre que se fala em mudanças na educação, em
primeiro lugar se pensa no professor. O senhor acredita que a geração
de professores que aí está é capaz de protagonizar processos
de transformação na escola? Que condições lhes deveriam ser dadas
para isso?
Vasco Moretto Não tenho dúvidas de que qualquer mudança
na educação tem no professor seu principal pilar. Os gestores têm
seu papel importante, mas o professor tem o papel fundamental,
uma vez que é ele que está agindo diretamente com o objeto
da educação: o aluno. Penso que esta geração de professores ainda
está muito longe de protagonizar uma profunda transformação na
escola. Não que não tenha inteligência, potencial, capacidade intelectual.
Simplesmente os professores não foram preparados para o
novo momento da educação. Cobra-se deles uma competência profissional
para a qual não foram preparados. E, mais, não há movimentos
profundos para mudança nestas condições. A profissão não
é valorizada, os salários não são compensadores em função do tipo
de trabalho, a sobrecarga de trabalho para melhorar seus rendimentos
os obriga a trabalhar em dois ou três turnos diários. E quando
irão se atualizar? Quando irão debater em comunidades de aprendizagem
com outros professores sobre os problemas enfrentados e
sobre novas epistemologias e/ou novas metodologias para a ação
pedagógica? Seguidamente, quando o professor tem algumas horas
destinadas a isso por contrato, prepara provas, corrige provas, quando
não corre para outra escola para “dar mais algumas aulas”. E a
formação continuada, onde fica?